Não morrerei sozinho
Não se há-de tresmalhar a canção
Do forasteiro
(Poesia de Daniel Faria - Edições Quasi, 2003)
PARA TI
sem palavras entre nós
é que o tempo correu
desde a última vez que te falei.
tinhas nesse tempo
uma voz de madrugada
inconscientemente fundida nos gestos
e nos teus olhos havia palavras francas
que os teus lábios acariciavam
com sorrisos de pessoa adulta
(parecias quase uma mulher)
lembras-te?
hoje tens um poema começado nos dedos
com bases firmes nas raízes dos cabelos
os teus braços estendidos
têm uma linguagem correcta dos versos
as mãos a noção exacta do tema
e começo a notar-te profundamente a obra no rosto
(há-de ser uma obra diferente como tu disseste)
quando tu fores toda um poema
eu hei-de procurar a tua leitura
porque sempre gostei de ler bons poemas.
(Carlos Ortil – Hey-jUve, 2/11/1969)
MEGALITO
Um dia serei um megalito.
Não sei porque é que esta palavra
desenhada claramente
numa grande planície deserta
se insinuou nos meus olhos.
Sei apenas que um dia serei um megalito
vestido de musgo e brumas.
Um megalito pautando
uma vasta paisagem musical.
Um megalito
tocado pelo vento e pela ideia.
Juntarei então em meu redor
amigos
mulher e filhos
no grande baile das folhas
que se vão chegando
à terra.
(José Fanha; Tempo azul, Campo das Letras - Editores S.A.,2002)
A publicação do post “Presença” http://nasciaqui-sobraldesaomiguel.blogspot.com/2009/05/presenca.html Serviu de mote a Laureano Soares, poeta, conterrâneo e amigo, para mais um dos seus poemas que partilho convosco:
Para lá daquela porta
« Havia um coração grande
Para lá daquela porta »
Onde ânsias e aspirações
Se viviam noite e dia
E no Inverno se sentia
Vindo das fendas da porta
O frio que gela e corta.
E num só, dois corações
Para lá daquela porta
Comiam nabos da horta
Aquecendo-se à lareira
Iam nutrindo ilusões.
E nos sulcos das ombreiras
Dessa linda porta antiga
Deixaram bem esculpida
P’ras vindouras gerações
Uma riqueza de outrora
Que é lentamente esquecida.
Essa porta abandonada
Que linda ! Se restaurada
P’ra testemunho e louvor
Às mãos que com tanto amor
Por elas foi cinzelada.
Para lá daquela porta…
Viveram dois corações
Deram amor, deram vida
A futuras gerações.
(Laureano Soares)
A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se
Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma
A criança pergunta se há-de ir ter consigo
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio
(Daniel Faria, Poesia – Edições quasi, Novembro de 2003)
EXTASE
Je me sens envoûté, conquis, par cette flamme
Qui brûle et qui enflamme um coeur transfiguré
Amoureux, perturbé jusqu’au fond de mon âme.
Et ma voix te proclame, ô divine beauté!
Pour toi, m’immolerais! Ce qui serait un drame
Détruisant la gamme à cet hymne enchanté.
Je veux vivre sans heurt sans peine ou amertume
Léger comme une plume, apprivoiser ton coeur,
Déguster ta freîcheur, qui rien, rien ne consume.
Suprprimer la coutume, écrire en une phrase
Le tout avec emphase et en toute splendeur,
Sombrer dans la douceur d’une sublime extase.
(Laureano Soares in De sable et d’eau claire,
Collectif de poésie du Cercle des Poètes de la Montérégie
[Impression: Le Caïus du Livre, Montréal, Canada])