sábado, 7 de Novembro de 2009

Miau Miau Miau (G. A. Rossini)

Estes não passaram pelo Sobral no tempo dos "miaus".

Se tivessem passado e provado os "miaus" nem conseguiriam cantar e se cantassem cantariam muito melhor...

domingo, 1 de Novembro de 2009

A FÉ E A RAZÃO...

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

E NAQUELAS MANHÃS...




Mornas de Outono,

do ritual dos gestos, o grão espreguiçava-se pelo estendedouro e adormecia.

Ao cair da tarde, só que fosse uma brisa amena era uma bênção!

E tínhamos: água, moinho, fermento, forno.

E sentíamos:

a mesa e o pão.

(No chão

o gato com(er)ia as miolas)

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

PÃO E LEITE...

"PÃO E LEITE" in Público.pt


"O filho:

Ó mãe?

Diz.

Leite com pão é que é bom!

Já comeste filho?

Não, mãe. Mas, vi comer."

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

POETAS DO SOBRAL


PARA TI


sem palavras entre nós

é que o tempo correu

desde a última vez que te falei.

tinhas nesse tempo

uma voz de madrugada

inconscientemente fundida nos gestos

e nos teus olhos havia palavras francas

que os teus lábios acariciavam

com sorrisos de pessoa adulta

(parecias quase uma mulher)

lembras-te?

hoje tens um poema começado nos dedos

com bases firmes nas raízes dos cabelos

os teus braços estendidos

têm uma linguagem correcta dos versos

as mãos a noção exacta do tema

e começo a notar-te profundamente a obra no rosto

(há-de ser uma obra diferente como tu disseste)

quando tu fores toda um poema

eu hei-de procurar a tua leitura

porque sempre gostei de ler bons poemas.


(Carlos Ortil – Hey-jUve, 2/11/1969)

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

ARDI… Que menina! Ou melhor, que borracho….


Há um ror de anos, na região de Afar – hoje Etiópia, alguém terá morrido. Os ossos do seu esqueleto mercê dos movimentos do planeta desconjuntaram-se e, com toda a certeza, misturaram-se com outros ossos, que naquele lugar (ao que dizem) paradisíaco, utilizavam os privilégios da sua paz… De repente, muito de repente, 4,4 milhões depois, mais propriamente em 1992, um hominídeo, naquele extinto paraíso, absorto nas agruras da vida, passeava cabisbaixo. Subitamente dá uma topadela numa pedra de onde salta um dente molar fossilizado. Com esse achado, ele, Gen Suwa, professor da Universidade de Tóquio e os seus pares, paleontólogos e paleoantropólogos, Ardilosamente, durante 17 anos, juntaram-lhe mais três dúzias de ossos de criaturas diferentes, para o dente não se sentir só (como na história do Raul Solnado) e construíram um corpo e deram-lha um nome, “Ardipithecus ramidus” e depois simplesmente Ardi – a mais antiga antepassada da mulher, claro. E agora os evolucionistas e os criacionistas terão pretexto para atirarem mais umas pedras. Pedras? Não, uns ossos, uns aos outros!
Não me apoquenta muito o facto de ser ou não ser minha antepassada ou prima. O que me apoquenta é o método: O Padre António Vieira com o seu Estatuário, dum pedaço de pedra arrancado duma rocha, cinzelando pouco a pouco faz uma estátua – talvez um homem. Os paleontólogos e paleoantropólogos, dumas dúzias de ossos, “um de cada nação”, fizeram um esqueleto e criaram uma mulher peluda, muito… peluda.
Isto é que é Ciência? Ciência era terem encontrado uma pulga, só que fosse, dos muitos milhões que povoariam o seu peludo corpo…
Em face da sua abaixa estatura, 1,20m e 50 quilos, eu não teria complexos e de certeza que o Nicolas Sarkozy também não…

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

O PESSEGUEIRO DO TI-ABRANTES

(A seta indica o lugar onde estava o pessegueiro)

(Barroco de Carvalho)

O PESSEGUEIRO DO TI-ABRANTES…

Ficava aqui: Rente ao Barroco das Rasas – este também um bazófias – que, logo ali à frente, desagua no Barroco de Carvalho. A sua bazófia só lhe permite levar água quando chove a rodos. Mesmo assim, parecia-me que matava muito bem a sede ao pessegueiro, que mal enjorcado, se erguia na sua margem direita, na parede e terreno rude, aparentemente, seco! O tronco, a pouco mais de meio metro do chão, partia em bifurcação rumo ao céu. E das duas pernadas, uma mais torta e desengonçada que a outra, partiam ramos sucessivos a permitir uma copa bela e frondosa, que quando floreava, a minha boca, por artes mágicas, salivava. Eu… que nem conhecia, ainda, Pavlov e o seu cão!

Comecei a andar por ali desde muito novo. O meu Carvalho fica ali ao lado e quer para levar as cabras para a outra margem do Barroco de Carvalho (que leva água durante todo o ano) quer “para as levar à água”, forçosamente tinha de passar pela Canada que fica ali de paredes meias com o Barroco das Rasas, logo, próximo do pessegueiro do Ti-Abrantes. O Ti-Abrantes era uma figura, quase lendária. Dizia-se, se bem me lembro, que esteve prestes a entrar para a Maçonaria. Quando comecei por conhecê-lo já era um homem velho, os filhos de meia-idade e netos mais velhos do que eu. Tinha a maior mercearia da Aldeia. Era uma loja com muito pouca luz. A mando do meu pai, lá ia eu comprar arroz, açúcar amarelo e petróleo para o candeeiro, e de vez quando, pela altura das malhas do centeio, um peixe de bacalhau.

O ti-Abrantes era um homem “rico”: Além do pessegueiro, da mercearia, do cavalo que tivera, tinha também um poço – “O poço do Ti-Abrantes”. Poço este que situado na Ribeira, em frente da sua mercearia, tinha peixes e trincaldos, que, por vezes, se viam azoinados, no cimo da água, por força da quantidade de sabão utilizado pelas mulheres que, debaixo da ponte do Fundo do Lugar, lavavam a roupa. De bizarro e valente tinha um pouco. Bizarro porque nunca o vi mal disposto, de sorriso maroto, debaixo do seu bigode farfalhudo e de pontas viradas para cima (um optimista por excelência), sereno e de cigarro de mortalhas na boca; e valente porque num dos mercados do Fundão, quando pretendia trocar o seu cavalo, a outra parte negociadora a pretexto de o ir experimentar nunca mais apareceu. Fora roubado. As horas iam passando. O ti-Abrantes, cheio de raiva mas confiante na sua sorte percorreu todas as ruas e arrabaldes do burgo e nada. Nem cavalo nem cavaleiro. Quando se preparava, ao cair da tarde, para o regresso, a pé, ao Sobral, pareceu-lhe ver, ao longe, o “notável negociante”, sem o seu cavalo. Vagarosamente e com astúcia, aproxima-se e consegue agarrá-lo. Deita-lhes as mãos ao pescoço, começa a apertar e a dizer “o meu cavalo ou o meu dinheiro”, “o meu cavalo ou o meu dinheiro” e cada vez apertava mais. O pessoal amigo do Sobral, solidário e receoso, murmurava, Eles ainda matam o ti-Abrantes, se não for hoje será quando um dia regressar ao mercado. E gritavam ó ti-Abrantes vamos embora, dia não são dias, e a vida é mais importante que o cavalo. Mas, o ti-Abrantes não era homem de pouca-fé. Estava ali firme que nem uma rocha. E só deixou o pescoço do homem quando um comparsa deste trouxe o cavalo de volta. E o ti-Abrantes lá continuou a ir ao àquele mercado sempre que quis, sem medo.

Ele e o meu pai eram amigos. Mas, que importava? Se ele tinha um pessegueiro, ali à mão de semear, que carregava todos os anos de pêssegos – dos que se roem – amarelos, calibre médio, com uma auréola avermelhada junto do caroço e com um sabor e cheiro únicos! Para mim, eram (e continuam a ser), sem dúvida, os melhores pêssegos do mundo. Desde que tivesse o gado em Carvalho, no tempo dos pêssegos, aquele pessegueiro era meu. Todos os dias. E ninguém sabia. Só eu!

De vez em quando, passo por lá. O pessegueiro já não existe. O cheiro e o sabor dos seus pêssegos, sim: A minha afinidade com o cão de Pavlov continua.