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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Por este (barroco de) Carvalho acima (3)

- E finalmente, cheguei!    
 


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O PESSEGUEIRO DO TI-ABRANTES

(A seta indica o lugar onde estava o pessegueiro) (Barroco de Carvalho)

O PESSEGUEIRO DO TI-ABRANTES…

Ficava aqui: Rente ao Barroco das Rasas – este também um bazófias – que, logo ali à frente, desagua no Barroco de Carvalho. A sua bazófia só lhe permite levar água quando chove a rodos. Mesmo assim, parecia-me que matava muito bem a sede ao pessegueiro, que mal enjorcado, se erguia na sua margem direita, na parede e terreno rude, aparentemente, seco! O tronco, a pouco mais de meio metro do chão, partia em bifurcação rumo ao céu. E das duas pernadas, uma mais torta e desengonçada que a outra, partiam ramos sucessivos a permitir uma copa bela e frondosa, que quando floreava, a minha boca, por artes mágicas, salivava. Eu… que nem conhecia, ainda, Pavlov e o seu cão!

Comecei a andar por ali desde muito novo. O meu Carvalho fica ali ao lado e quer para levar as cabras para a outra margem do Barroco de Carvalho (que leva água durante todo o ano) quer “para as levar à água”, forçosamente tinha de passar pela Canada que fica ali de paredes meias com o Barroco das Rasas, logo, próximo do pessegueiro do Ti-Abrantes. O Ti-Abrantes era uma figura, quase lendária. Dizia-se, se bem me lembro, que esteve prestes a entrar para a Maçonaria. Quando comecei por conhecê-lo já era um homem velho, os filhos de meia-idade e netos mais velhos do que eu. Tinha a maior mercearia da Aldeia. Era uma loja com muito pouca luz. A mando do meu pai, lá ia eu comprar arroz, açúcar amarelo e petróleo para o candeeiro, e de vez quando, pela altura das malhas do centeio, um peixe de bacalhau.

O ti-Abrantes era um homem “rico”: Além do pessegueiro, da mercearia, do cavalo que tivera, tinha também um poço – “O poço do Ti-Abrantes”. Poço este que situado na Ribeira, em frente da sua mercearia, tinha peixes e trincaldos, que, por vezes, se viam azoinados, no cimo da água, por força da quantidade de sabão utilizado pelas mulheres que, debaixo da ponte do Fundo do Lugar, lavavam a roupa. De bizarro e valente tinha um pouco. Bizarro porque nunca o vi mal disposto, de sorriso maroto, debaixo do seu bigode farfalhudo e de pontas viradas para cima (um optimista por excelência), sereno e de cigarro de mortalhas na boca; e valente porque num dos mercados do Fundão, quando pretendia trocar o seu cavalo, a outra parte negociadora a pretexto de o ir experimentar nunca mais apareceu. Fora roubado. As horas iam passando. O ti-Abrantes, cheio de raiva mas confiante na sua sorte percorreu todas as ruas e arrabaldes do burgo e nada. Nem cavalo nem cavaleiro. Quando se preparava, ao cair da tarde, para o regresso, a pé, ao Sobral, pareceu-lhe ver, ao longe, o “notável negociante”, sem o seu cavalo. Vagarosamente e com astúcia, aproxima-se e consegue agarrá-lo. Deita-lhes as mãos ao pescoço, começa a apertar e a dizer “o meu cavalo ou o meu dinheiro”, “o meu cavalo ou o meu dinheiro” e cada vez apertava mais. O pessoal amigo do Sobral, solidário e receoso, murmurava, Eles ainda matam o ti-Abrantes, se não for hoje será quando um dia regressar ao mercado. E gritavam ó ti-Abrantes vamos embora, dia não são dias, e a vida é mais importante que o cavalo. Mas, o ti-Abrantes não era homem de pouca-fé. Estava ali firme que nem uma rocha. E só deixou o pescoço do homem quando um comparsa deste trouxe o cavalo de volta. E o ti-Abrantes lá continuou a ir ao àquele mercado sempre que quis, sem medo.

Ele e o meu pai eram amigos. Mas, que importava? Se ele tinha um pessegueiro, ali à mão de semear, que carregava todos os anos de pêssegos – dos que se roem – amarelos, calibre médio, com uma auréola avermelhada junto do caroço e com um sabor e cheiro únicos! Para mim, eram (e continuam a ser), sem dúvida, os melhores pêssegos do mundo. Desde que tivesse o gado em Carvalho, no tempo dos pêssegos, aquele pessegueiro era meu. Todos os dias. E ninguém sabia. Só eu!

De vez em quando, passo por lá. O pessegueiro já não existe. O cheiro e o sabor dos seus pêssegos, sim: A minha afinidade com o cão de Pavlov continua.

quarta-feira, 25 de março de 2009

XISTOSIDADE (5)

Este rio que não é um rio, alisa-me pedaços esmiuçados das minhas memórias, eu rio

(-me), em silêncio…