
No centro da cozinha, sobre a pedra granítica que foi mó de moinho, as torgas estavam ao rubro. Pendente nas cadeias que desciam do caniço, a caldeira do arroz-doce esperava pelo calor final. Estava quase. As emoções de que hoje me fala Ferran Adriá já habitavam o meu corpo: Ao rubro estava também a minha boca. A impaciência para provar o arroz consumia-me. E aquele Natal vinha mesmo a calhar. A última vez tinha sido na festa de São Miguel . Nos potes havia mel e azeite: Nas arcas, farinha e grão de milho e centeio. Havia leite e ovos. Mas, por vezes, não havia carteira. O tempo também era outro e duro. Naquele Natal, o arroz-doce era a meias com a prima Rosário. Pronto, chegara a hora de distribuir aquele mimo pelos pratos. Um seria para ser provado: por nós, eu e minhas irmãs, e pela prima Rosário. Com o prato ímpar na mesa, estava tudo a postos. Cada um com a sua colher e… de repente, no silêncio escuro da noite, alguém começou a cantar as Janeiras, ali ao pé da porta (na aldeia habitualmente as Janeiras eram cantadas nas antevésperas do Natal até ao dia de Reis). Não havia sol, não havia lua e os presidentes ainda não tinham “dado à Luz” – logo a escuridão era total. Mas, mesmo assim, a Rosário e duas das minhas irmãs correram para a janela “para dar fé”, pois de certeza que não conheceriam ninguém. Eu e a minha irmã mais nova ficamos na mesa e, com serenidade, começamos a provar o arroz, com tal empenhamento e concentração na prova que, alguns segundos depois, quando a excursão voltou da janela, o prato de arroz-doce já era… A prova ficara feita! Para prova já não haveria mais. Daí em diante só a matemática…