CANTO X
I
Sobral de São Miguel, berço dourado,
Nenhuma igual a ti, ó meu amor,
Terra de meus pais, canteiro amado,
Repleto de mil bênçãos do Senhor;
De muitos naturais foste cantado,
Em cítaras e harpas de louvor.
Rezas, humilde, prostrado, ao fundo,
Como que a lembrar o final do mundo.
II
Teus filhos comem, na dureza, o pão,
Amassado no esforço e no suor:
No Fundo do Lugar, no Caratão,
Por todos os lugares, ao derredor,
Soará sempre em nosso coração
E no fundo da alma com mui fervor:
Sobral acolhedor, hospitaleiro,
Não há igual a ti no mundo inteiro.
III
Cercado de oliveiras e pinhais,
Espelha-se na ribeira ternamente;
Nas encostas abundam os currais
Onde o gado adormece docemente;
Uivam, à roda, lobos e chacais.
Cães de guarda repelem ferozmente.
Pode dormir tranquilo o seu pastor
Da noite o sono, da manhã o alvor.
IV
Chiam rodados já pelos caminhos.
Bois poderosos puxam pelos carros.
Cantando esvoaçam os passarinhos.
Deixando as plumas ficar pelos barros,
Vão sem demora em busca dos seus ninhos.
Pastores, além, vão limpando os tarros
Ðas ferradas do leite que extraíram
As fêmeas que, entretanto, já pariram.
V
Manta aos ombros, pífaro na sacola,
Solta o pastor, pela manhã, o gado
Os pais tiraram-lhe dias de escola;
Vai cantarolando, alegre, no prado,
Parece um mendigo pedindo esmola,
Mas vive tranquilo e bem sossegado e
Que breve há-de vir a libertação
Quando, um dia, for chamado à inspecção.
VI
Sobreiras, castanheiros ancestrais,
Espalham-se pelo povo em cortesia.
Lembram monges em matinas claustrais
Orando e laborando obra pia
Do Barreiro, às Ladeiras, aos Torgais,
Vão cumprindo uma longa romaria
Até que um dia chegue finalmente
o seu abate feito tristemente.
VII
Teus autarcas engordam no poder,
Mas não se lhes dá de cuidar de ti.
Os da Covilhã preferem esquecer
«Sobral sem rei nem roque», onde é que eu li?
Isto quem é que o pode ora entender!?
Os da terra por aqui e por ali...
Ninguém tem tempo para dedicar
A tanta obra que há por realizar.
VIII
Ribeira de águas puras, de cristal,
Como estás, de tanta poluição?
Como te puseram, meu rico Sobral!
Almas sem pensarem, sem coração
Sem respeito nem consideração
Sujam indignamente o teu caudal
Tudo foi feito em nome do progresso.
Tornou-se num gigantesco insucesso!
IX
Outrora as ruas cantavam alegria.
Chafariz da Ponte era a concentração
De ranchos e ranchos para a romaria:
Alguns pernoitavam com mui razão
E, mal a noite dava azo ao dia,
Metiam-se ao caminho, pois então,
Com destino ao Senhor do Colcorinho
Cantado e dançando pelo caminho.
X
Imponente, ao centro, fica a Igreja
Com sua torre desafiando o céu,
Qual grito íntimo que alguém deseja,
P’ra libertar-se da noite de bréu.
Que todos saibam, todo o mundo veja,
Dalí até ao Povo do Miléu
Quanto alguém pode movido pela fé
Confiado a Maria e a São José.
XI
Meu São Miguel, és padroeiro forte,
Deste povo que canta ao desafio;
Suportas, lá, na torre, o vento norte
Ano após ano, ao sol e ao frio;
Ninguém te inveja a dura e cruel sorte.
Quando rodas e rodas, muito, a fio,
Só te falta cantar: cócorócó
Não sendo já tormentoso estar só.
XII
Defendes, lá, da tua fortaleza,
O Povo rude e culto desta terra;
Quando paira nos ares a incerteza
Dos seus filhos irem lutar p’rà guerra,
Estendes as asas com mais nobreza,
Tanta quanta, por bem, teu peito encerra.
Se mais não fazes é porque não podes
Que água do capote tu não sacodes.
XIII
Quando chega o dia da tua festa,
A tua imagem sai engalanada.
Anjo de Portugal, cheirinho a giesta,
Aldeia toda fica perfumada,
Não se vê romaria assim como esta.
Anjinhos saem de asa prateada,
O Povo canta ao Senhor São Miguel,
Defensor bendito, forte e fiel.
XIV
Pelas eiras estendais de milho ao sol,
Juncam o chão de grãozinhos dourados;
Nos salgueiros já canta o rouxinol,
Melodias e ritmos bem timbrados.
No horizonte, brilhante o arrebol,
Deixa poisar os raios nos telhados.
As crianças regressam já da escola
Com os livros arrumados na sacola.
XV
Fumegam chaminés de telha-vã.
Chega do campo o lavrador cansado.
Na cozinha faz o caldo a mamä.
o gato espreita, mesmo ali, ao lado.
A filha põe a mesa com afã.
O filho faz as contas embalado
Ao som das panelas já a ferver
A ceia aí está pronta p’ra comer.
XVI
A família dorme em colchão de palha
Depois de rezar muito pelas alminhas;
o cansaço provoca alguma falha.
As almas nos perdoem, coitadinhas!,
Deus nos acuda, nos salve e nós valha!,
Rezam os pais em doce ladainha;
Os filhos, esses, roncam para o lado
Um sono mui tranquilo e bem pesado.
XVII
No cubículo amanhece cedo.
o vento, sibila, frio, pelas fisgas.
A mãe levantou-se muito a medo.
A seguir foi a vez das raparigas.
Eles ainda dormem, qual penedo.
Era já tarde ao deixarem as espigas
Pelo sobrado da casa espalhadas,
Secando, para serem debulhadas.
XVIII
Novo dia retoma seu fadário.
As mulheres em casa na liderança,
Todos cumprindo o programa diário,
Enchem o lar de abundante abastança
Para prosseguirem o itinerário
De partilhar a casa sem tardança.
Louvado seja Deus, nosso destino!
Mais que o pão, importa o amor divino.
XIX
Do Cabeço da Nave à Fozgiesteira,
Do Carvalho, do Pereiro ao Porcim,
Vai gastando este povo a vida inteira,
Sorvendo o rosmaninho, o alecrim;
Nas encostas da serra é canseira
De amanhar a terra dura, por fim,
Comer centeio com o suor do rosto,
Na alma a cantar aleluias por gosto.
XX
Povo imortal dos teus e meus avós,
Eu te saúdo, canto e venero.
Vives distante, abandonado, a sós;
Mas ver-te alevantado ainda espero
Após tremenda luta, guerra atroz,
Num grito enorme, final desespero:
«Não deixem morrer meu Sobral, querido,
Assim «por eles», meu grito seja ouvido!
XXI
Na Portela veneras Bárbara Santa,
Excelsa padroeira dos mineiros;
O seu martírio dá-nos alma tanta
Que a trabalhar nós somos pioneiros.
Quando a vida vai mal, a gente canta:
(E nisto de cantar somos primeiros).
Talvez para abafar a escuridão
Da Madurrada ao Cabeço Pião.
XXII
Na Foz da Portela lava-se a gente
Que não descer ao Poço das Navalhas;
Todo a ano a ribeira tem corrente
Mesmo se a chuva tem, por vezes, falhas;
Um rego corre sempre docemente,
E leva pela frente areias, palhas,
Até se confundir no Forcacão
Onde as ondas já fazem turbilhão...
XXIII
Dali, ao Zêzere, quantos saltos dá!
Rola, de cascalheira em cascalheira,
Pula, de cascata em cascata, já;
Juntando-se às águas da Panasqueira
E a outras mais qu’inda correm por lá,
De boa companhia e cavaqueira,
Fazem o grande Tejo transbordar
E vão morrer, raivosas, no alto mar!
(In Cantando os Hermínios, de Pe. António Pinto da Silva, edição do ano 2000 da Câmara Municipal de Penamacor)
Nota: Soube da existência deste livro passados alguns anos depois da sua publicação. Por motivos vários e principalmente por não ter sabido procurar nos sítios certos só agora, passados 10 anos da sua publicação, me vem às mãos. Livro composto por 10 Cantos de exaltação à Serra da Estrela, sendo o último dedicado ao Sobral.