
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Quanto mais negra é a noite...

sábado, 12 de abril de 2008
O PÃO

O PÃO
Disse-te, Platero, que a alma de Moguer é o vinho, não foi? Não; a alma de Moguer é o pão. Moguer é como um pão de trigo, branca por dentro, como o miolo, e dourada à volta – oh, sol moreno! – como a branda côdea.
Ao meio-dia, quando o sol queima mais, a aldeia inteira começa a fumegar e a cheirar a pinheiro e a pão quente. Abre-se a boca a toda a aldeia. É como uma grande boca que come um grande pão. O pão vai bem com tudo: com o azeite, no gaspacho, com o queijo, com as uvas, para dar sabor a um beijo, com o vinho, com o caldo, com o presunto, com ele mesmo, pão com pão. Também sozinho, como a esperança, ou com uma ilusão…
Os padeiros chegam a trote nos seus cavalos, param a todas as portas meio abertas, batem as palmas e gritam “Padeeeeeirooooo!”… Ouve-se o ruído meigo dos pães que, ao cair nos cestos, que braços nus levantam, chocam com os bolos, das fogaças que chocam com as roscas.
E logo os meninos pobres chamam às campainhas das cancelas ou às aldrabas dos portões, chorando longamente lá para dentro: Um bocadinho de pão!...
(Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu, Edições Cotovia, Lda., 2007)
sexta-feira, 11 de abril de 2008
SIBILA – AO RECÉM NASCIDO

Aperta-te ao meu peito
Meu menino:
Nascer é uma queda nos dias.
Das rochas de além-nuvens, de nenhures,
Que baixo caíste,
Meu menino!
Eras espírito, pó te tornaste.
Chora, meu menino, por eles, por nós:
Nascer é uma queda nas horas!
Chora, meu menino, no futuro e além:
Nascer é uma queda no sangue,
No pó,
Nas horas…
Onde os clarões dos milagres?
Chora, menino: o nascer para o peso!
Onde as jazidas da generosidade?
Chora, meu menino: o nascer para a conta,
Para o sangue,
Para o suor…
Mas hás-de erguer-te! O que no mundo se chama
Morte – é queda no firmamento.
Mas verás! O que no mundo – se diz pálpebras
Cerradas – é nascer para a luz.
Do agora –
Para o sempre.
A morte, pequeno, não é dormir, é erguer-se,
Não é dormir, é regressar.
A nado, pequeno! Já um degrau
Foi galgado…
- Ascensão para o dia.
(Marina Tsvetáeva, Depois da Rússia, 1922-1925, Relógio d’Água Editores, Novembro 2001),